AQUELA CARTA

Tua carta diz assim:
“Devolvo aquilo que me deste um dia:
versos, cartas de amor e tudo, enfim,
em que há um pouco da tua fantasia
e muito de nós dois, de ti, de mim...”

Mas nesta carta amargurada e fria
uma frase de mística ternura
vem, depois:
“Agradeço, porém, toda a doçura
com que encheste a minha alma de alegria,
para a glória do afeto de nós dois.”

E chego ao fim – que sabe a espinho e a rosa,
que é minha glória e meu tormento:
“Esquece a nossa história dolorosa,
ou guarda, do seu grande encantamento,
uma lembrança suave e carinhosa,
pois eu te quis imensamente, um dia...”

Não te posso esquecer. Viverás na minha alma
como o sol numa tarde, sem poesia...
Dobro a carta, chorando. E a minha dor se acalma
ao pensar, no crepúsculo de seda,
(enquanto, pelo azul, nuvens roxas se adensam...).
que não terás de mim o mais leve rancor...
A tarde cai como uma bênção
de ouro e de cinza no silêncio da alameda.
...............................................................................
É muito triste o fim de um grande Amor!