CANÇÃO DA CHUVA

Só. A chuva canta lá fora.
o dia está triste e cinzento
como um inútil pensamento
de quem contempla a vida — e chora...
A chuva cai, lenta, lá fora...

Parece que tem alma a chuva...
Ela chora assim como a gente,
sentidamente, amargamente,
quando a tristeza nos enviúva...
Deve ser triste a alma da chuva...

E, neste abandono — que frio!
Mas o coração está quente,
cheio de ti, eterna ausente,
no meu pobre quarto vazio...
Coração ardente! — que frio!

Alvas mãos de luar... lábios de uva...
Penso: a saudade, na tarde erma,
na minha alma, dorida e enferma,
chora e canta como esta chuva...