DESESPERO

O sol caustica a face morena do Sertão!
A gente olha a estrada:
               lá longe,
numa curva distante do caminho,
a caravana dos párias nômades aparece...
No olhar - trazem o doloroso desespero
das almas condenadas!
No corpo descarnado,
uns trapilhos que brilham, à luz crua do sol
- trágica ironia! -
dando a rica ilusão de mantos régios...

Por cima
o céu imenso e azul
é uma gargalhada cínica, sem riso...

Para não deixar nem lembrança do seu nome
o caboclo toca fogo na sua choça de palha
- e ei-la que vomita labaredas para o alto,
como um protesto rubro da raça infeliz
contra o destino mau que Deus lhe deu...
Depois, o homem rude,
sentimental como todos os cearenses,
fecha os olhos e sonha:
diante dele a boiada muge satisfeita,
o rio murmureja, rumoreja,
os pássaros estridulam alegremente,
de mistura com a voz flébil da cabocla
e a alegria festiva de seus filhos!...
E o milharal ondula, a refulgir,
cantando um hino de esmeralda e de ouro!
Mas,
quando o homem rude abre os olhos,
vê a realidade:
a mata em fogo!
a terra em fogo!
              o céu em fogo!

E ele verga o joelho, vencido,
chorando sobre a terra desgraçada
onde nasceu... Terra da maldição!

Ah! que ele ficaria ali chorando, eternamente,
contanto que a chuva de suas lágrimas
ressuscitasse a glória do Sertão!