E A MINHA TERRA FALOU

A Antônio Sales

Eu vivia feliz,
desconhecida e selvagem,
brincando com o sol e adornada de penas.
Um dia...
(A culpada de tudo foi lracema,
que tinha um coração
muito maior do que o meu!)

Os olhos azuis do estrangeiro
envenenaram a alma bárbara da índia.
Martim, que andava perdido na floresta,
ficou todo embevecido diante dela!

Descobriu, no corpo bronzeado da tapuia,
os segredos de uma raça belicosa e ardente...

E vieram muitos estrangeiros
em busca do guerreiro de tez branca.
Eles deixaram,
no sangue quente e puro de meus filhos,
a tara sentimental dos lusitanos...

Depois,
onde troavam outrora os maracás festivos,
apareceram guitarras e violas doloridas.
Ao batuque simbolico de meus bravos
sucedeu a dança arrastada e lúbrica
dos nostálgicos românticos da península...

Mas, eu me vinguei em Moacir
- o primeiro fruto impuro da minha raça!

Ele, que nasceu sob este céu e diante deste mar,
- céu que não se olvida nunca! -
- mar que ninguém nunca esquece! -
teve de ir dormir o último sono em terra estranha,
longe do calor maternal do meu seio...
Dizem que chorou muito, lá no exílio,
ao recordar o canto da jandaia...
Foi o primeiro cearense que imigrou!

Assim falou a minha terra.
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E havia soluços estrangulados
na voz clangorosa e triste de minha terra!