LUNDU AFRICANO

A Aderbal de Paula Saies

"Na terra distante da Núbia,
onde o sol queima como no sertão do Ceará,
ela ficou, meu branco,
adorando este quadro,
que a sua retina guardou por toda a vida:
- uma nau de velas brancas ao vento bravo
- onde eu ia debaixo de correntes -
a se perder entre o horizonte e o mar..."

E o velho negro africano,
que durante meio século fora escravo,
curvava a fronte,
contando a sua história
tão negra como a sua pele...
A sua carapinha branca,
muito branca,
semelhava a lua límpida e mansa,
aclarando o pretume lúgubre da noite...

Havia
na sua voz trêmula e cansada
a tristeza e a doçura
de um bárbaro lundu
da terra trágica de Cham!

Amou, um dia, o preto velho...
Tinha, talvez, vinte anos bem nutridos.
Nesse tempo, ele trabalhava satisfeito
- e o seu corpo reluzia, ao sol,
envolto no óleo amargo do suor...
Mas era feliz:
havia alguém que o aconchegava ao seio,
contando-lhe histórias lindas e amorosas.
Ela era preta, retinta como ele,
mas também tinha, como o pobre negro,
um coração alvo
como os seus cabelos, na velhice...

Todas as noites
o velho africano
contava aquela história dolorosa,
como quem reza uma prece:
- "Olhe, nhonhô:
se ela não morreu,
garanto!
Juro que ainda hoje,
toda enrugada e de cabelos brancos,
ela vive, coitada
- na terra distante da Núbia -,
adorando, num enlevo,
este quadro,
que os seus olhos guardaram por toda vida:
... uma nau de velas brancas ao vento bravo,
- onde eu ia debaixo de correntes -
lá - longe,
a se perder entre o horizonte e o mar..."