O CANTO DO HOMEM TRISTE

Eu sou o homem que esconde,
dentro do coração
a angústia de todos os homens...

Meus olhos são negros
da treva interior que refletem,
e tristes
da amargura íntima do meu ser.

Minhas mãos trêmulas
foram feitas para cobrir os meus olhos
enquanto, diante de mim,
canta a vida vertiginosa,
trepidante
dinamica
- a vida que eu não posso viver!

Eu sou o homem de uma civilização longínqua
que os séculos guardaram,
para aturdir com o tumulto desta hora!
Nos meus sonhos nostálgicos
vejo desertos infinitos,
onde eu, de cajado e capa estendida ao vento,
tangendo rebanhos brancos como a lua,
vou cantando pastorais pelo crepusculo...
E, ao fim da jornada, encontro
uma mulher de olhos negros e raspados
que me traz,
num cântaro esquio como o seu corpo,
para matar a minha sede,
agua fresca e cheirosa como a sua boca...

Assim
eu não posso sentir o deslumbramento
deste inquieto instante universal
E cubro, com as mãos trêmulas, os olhos,
enquanto, diante de mim,
canta a vida vertiginosa,
trepidante
dinâmica,
- a vida que eu não sei viver!