O POEMA QUE HERMES FONTES
NÃO ESCREVEU

Noite de Natal! Doçura. Encantamento.
No meu berço distante e pequenino,
isento de paixões e de ambições isento,
eu te ofertava, num deslumbramento,
os meus sonhos dourados de menino...

Noite de Natal! (Minha voz muda o som...)
Agora, enches de treva o meu destino,
tornando-me descrente e desgraçado.
E até me sinto mau - eu que sempre fui bom!
Ouço de novo alguém, que predisse o meu fado:
- Glória, Prazer, Felicidade, Amor,
tudo, tudo é mentira, Sonhador!

A angústia me alucina e me agrilhoa os pulsos!
Seja-me a, vida o que quiser...
O deserto sem fim onde uma asa não voa
e onde apenas se vê, a rir dos ais convulsos
da minha alma tão simples quanto boa,
da minha alma que, enfim, já não sabe o que quer,
esta mulher. . . esta mulher. . . esta mulher!
Vejo imersos em sangue e lama os sonhos meus...
(Senhor, esta Vergonha é um cálice de Absinto!)
Amei-a com loucura e quase por instinto,
como se adora o Sol e a Lua - e o próprio Deus!

Mentiu-me. Abandonou-me. E eu fiquei sem conforto,
amargurado e só,
no martírio infinito do meu horto,
sozinho como Cristo e exposto como Jó!
Pedras ingratas me feriram todo...
Não sei por que me segue esta visão sangrenta!
Quando a vida se sente afundada no lodo
- é preciso extinguir a chama que a alimenta!

Noite de Natal!
O festivo rumor que anda lá fora
me exaspera e faz mal!
Vês, entre os meus dedos,
fulgindo como um verso impassível de Herédia,
brilhando como um astro, este fulvo metal?
Pois bem. Eis o fim. Oculta os meus segredos...
A comédia transmuda-se em tragédia:
- esta bala vai ser o meu ponto final!