ODE INACABADA

Jangadeiro do Ceará!
tu escreves, de sol a sol, no mar revolto,
a história viva de uma raça eterna,
a epopéia simbólica de um povo.
Os quatro paus da tua jangada
são a tua cruz e o teu Tabor.
Quando, em torno de ti,
ondas em fúria abrem as fauces como feras
— não tremes, não recuas, não vacilas,
desafiando a cólera das vagas!
Jangadeiro — herói de batalhas cotidianas!
quem te olha de longe, com assombro,
vê em ti um bronze que fala e que caminha,
e não uma criatura como as outras,
do mesmo barro frágil e imperfeito.
No entanto,
no arcabouço de teu peito,
vive a bater,
vive a pulsar
o mesmo coracão generoso e valente
daquele jangadeiro singular
que, um dia, fechou, com mão de ferro,
— para o comércio dos escravos negros —,
a porta do oceano.
E foi — no reino soberano —
Dragão do Mar!