PAÍS DO FUTURO

Onde ficaste, Ariadne,
com teu novelo de lã?
Estou sem guia, sem rumo,
neste imenso labirinto,
sozinho com o Minotauro
neste dédalo sem fim.

O monstro vai devorar me
com as mandíbulas enormes,
vai o peito estraçalhar me
com as suas garras disformes,
vai moer me, triturar me,
enquanto, Aríadne, dormes
lá fora, em plena manhã.
Dormes, dormes, dormes, dormes,
no engano da vida vã,
a primavera nos lábios
entreabertos, de romã,
das mãos abertas — caído
o teu novelo de lã...

E o meu destino perdido
no terrível labirinto
cuja saída não sei:
meu destino onde perpassa
a sombra nobre de um rei.
Depois vem ordem, progresso,
liberdade, nova lei,
o futuro, o meu futuro,
que se anunciou grandioso
e eu ainda maior sonhei,
— perdido no labirinto
cuja saída não sei ...
Que é do novelo de lã?
Ariadne! Ariadne!
Eu quero ter amanhã!

Agosto de 1963