BALADA DO CINQUENTÃO

Fatiguei me tanto, Amada.
Viajei cinqüenta léguas
por essa fragosa estrada
que toda, a pé, percorri.
Dentro da alma fatigada,
dos tesouros que juntei,
não resta nada? A lembrança
(por que não dizer saudade?)
de tudo quanto gozei,
de tudo quanto sofri.

Dos beijos que te ofertei,
dos versos que te devi .
De um rio que atravessei
inda criança... e perdi
Claro sino que escutei
na cidade em que nasci.
Doces rimas que rimei,
quando menino — e esqueci.
Das gerações que eduquei,
pelas quais tanto lutei
e das quais tanto aprendi.
Dos tempos da mocidade
ambiciosa, em que sorri
embalado na esperança
de um bem que nunca se alcança,
de um futuro... que não vi.

Oh! Futuro! espelho mágico!
montanhas de ouro, brilhantes!
As rosas caem do céu,
saltam estrelas da terra,
abre se o mar em corais ...
Tudo um sonho evanescente.
Hoje só tenho passado.
Hoje só tenho presente,
Mais passado que presente.

Futuro não tenho mais.