CANÇÃO DO RAIO

Quando o sol sumiu
no céu muito escuro
de nuvens pejadas
de chuvas e de chamas,
o menino sentiu
saudades do rio,
seu rio tão doce
— Salgado de nome —,
correndo entre moitas
de verde mofumbo,
curvas ingazeiras,
árvores sombrias,
correndo, correndo...
Correndo, correndo
com a infância feliz

do ardente menino
que sonhava viagens
por terras estranhas
com jardins de estrelas
suspensos nas nuvens
do mundo impossível
de um menino poeta.
Poeta sem letras,
sem livros, sem lira,
sem mestre, sem nada.
Um poeta só de alma.
Mas de alma que canta,
que freme, que chora,
qual fonte a fluir
no meio de pedras,
tímida e sonora.

O raio rolou
das nuvens pejadas
de chuva e de chamas.
Tombou o menino
na terra molhada.
O fogo envolveu lhe
a roupa, os cabelos.
Deixou cicatrizes
no corpo inocente.
Marcou para sempre
a vida, dos seus.
— E a alma do menino?
Ficou mais cheia,
mais cheia de canto,
mais cheia de rimas,
mais cheia de Deus.