RECÔNDITA

Cada manhã eu te encontro
e todo o dia me foges.
Na tua cápsula de nuvens
entras em órbita - e vagas
sobre mil mundos suspensos.
Descobres outros espaços
onde o espaço se dissolve.
Atravessas outros tempos
onde o tempo se dilui.
De todos os horizontes
recolhes perspectivas.

Arco-íris entre os dedos,
estrelas entre os cabelos,
nos seios conchas de nácar
que mudam de forma e cor...
Acendes clarões precípites,
acordas noturnas músicas
de cidades oceânicas
onde há pontes invisíveis,
mas sangrentas de corais.
E sobes pelas alturas
que não terminam jamais.

Abro os olhos - não te vejo!
Fico só na solidão
silenciosa de mim mesmo.
Se fecho os olhos, no entanto,
eu te descubro, te vejo,
escondida no recanto
mais escondido do ser.
E a tua beleza é tanta,
é tanta a tua presença,
que às vezes eu fico cego
pra não deixar de te ver.