MILAGRE

Se a Morte permitir que eu alcance a velhice,
um dia, muito longe deste dia,
num jardim quieto,
estarei sereno, talvez risonho,
coroado de cabelos brancos
- que são as espumas das marés humanas -,
vendo a vida cirandar em torno de mim.

A vida que chega nas criancinhas cor-de-rosa...
A vida que voa, que galopa
nos corpos ágeis dos adolescentes.
A vida que anda apressada,
com os homens e as mulheres,
em busca da Felicidade inatingível.

E a vida que pára, à espera da morte,
nos velhinhos acurvados e trôpegos,
sob o inverno último dos anos.
E por que me sentirei diferente desses velhinhos?
Por que nos olhos deles há uma tristeza que não passa,
em desalento sem fim?
Por que só eu, velhinho também, estarei risonho?
Por que só eu, no fim da vida,
ainda amarei, com todo ardor, a vida?
Porque quem sonha tem a idade que quer.
Porque o sonho nunca deixará minha alma.
É o milagre do sonho...