CARNAVAL

Foliões estão passando pela rua,
num passo estranho e original,
- homens vestidos de mulher -
- mulheres vestidas de homem -
no estonteamento do carnaval!

A alegria desacorrentou-se.
A volúpia ferve
em tachas de fogo!
Prazer! Lubricidade! Desvario!

Feliz, a humanidade!
Homens, como saltais,
como pulais, de contentes!

Mulheres, a folia vos transfigura!
Como é boa a vida! -
Como é boa a vida!

Mas uma voz vem baixando das nuvens,
            vem subindo das ondas,
            vem rolando de outras terras,
voz cava, soturna, angustiosa,
voz pesada de vozes de todos os tons,
voz de horror:
- A vida aqui é sofrimento e dor...

Foliões estão passando pela rua...
Como são felizes as criaturas humanas!
O carnaval é a festa da Vida!

Mas a voz cava, soturna, angustiosa,
está dizendo e repetindo:
Dor e ódio! ódio e dor!
É o carnaval da Morte...

Milhares de homens ensaiam a dança macabra,
a dança de um passo só...
As balas silvam,
as metralhadoras crepitam,
os aviões rodopiam no ar,
fantasiados de dragões de olhos em chamas...
E a dança sinistra continua...

As granadas estouram,
os canhões espoucam,
a terra estremece,
o mundo se abala...
E a dança trágica não cede,
a dança continua...

Mas agora são poucos os homens que dançam.
Os que deram o passo - o passo único -
ficaram estendidos na lama,
de olhos vidrados
e bocas retorcidas.

A Morte passa num cavalo de fogo,
tremendo de gozo,
gargalhando,
chocalhando os ossos!

A Morte brinca o Carnaval!

                                    Fevereiro, 1944