NATAL DE SANGUE

Natal! Que noite negra!
A estrela do Pastor já não brilha no céu...
Mas das nuvens caem
fogos que incendeiam
e chamas que devoram.

Natal! Que noite triste!
O sino não repica,
a ovelha não bala,
os anjos não cantam,
a terra está erma de harmonias...
Mas enchem o ventre negro da noite
o ribombar dos canhões
e o tatalar de asas lúgubres
dos corvos metálicos...

Natal! Que noite trágica!
Natal das crianças órfãs de Stalingrado,
Natal das mulheres sem marido de Lídice.
Natal das virgens sem amor de Singapura,
Natal dos homens sem liberdade
                dos campos de concentração.
Natal das igrejas sem Deus,
das sinagogas sem mestres,
das multidões sem alma,
dos povos sem destino,
da vida sem sentido e da morte sem causa!
Natal de sangue!
De sangue que aterra:
- sangue nos ares,
sangue nos mares,
sangue na terra!

Natal! que fizeste do menino
que trazia o Amor nos lábios,
a Paz nos gestos
e, na palavra,
o Caminho, a Verdade e a Vida?
Natal! por que a Estrela se apagou no céu?
Por que a voz do sino se extinguiu no espaço?
Por que os Magos se extraviaram no deserto?
Por que não vemos mais a manjedoura de Belém?

Ah! os homens perderam o endereço de Deus!

Ah! os homens estão caminhando
           para o abismo sem fim do sem fim...
Natal! Natal!

                                Dezembro de 1943