BANDA DE MÚSICA

A banda de música da minha terra natal,
nos meus tempos de menino vagabundo,
era a banda de música mais original
que havia neste mundo.

Mestre Bezerra, o "maioral" da banda,
metido em sua farda branca reluzente,
             lá na frente,
             musicalmente,
como um príncipe negro da Loanda.

Ele tocava um instrumento enorme,
             desconforme,
que o envolvia da cabeça ao tronco,
             qual
uma cobra amarela de metal,
cuja boca se abria para a gente,
             ameaçadoramente...
Era um bombardão que nos falava assim,
em meio a um clássico e monótono dobrado,
sempre no mesmo som
             sem tom
             tão bom:
             prom... prom...
             prom... prom...

O mulato da requinta, espiritual,
             requintava
num finísslmo requinte musical.

Mas o pistão estralejava.
             gritava,
             escandalizava!...
             E o bombo
             com o lombo
             já bambo
             num ribombo
             de trovão:
             tum-bum-bão!
             tum-bum-bão!

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Já vai tão longe, tão longe...
Mas ainda hoje eu escuto, emocionado,
nos recessos profundos do meu ser,
a melodia indefinida e mansa
do velhíssimo dobrado
que embalou os meus sonhos de criança.
E, diante da infância que passou,
a distância afinal me persuade
de que aquela banda de música pequenina
era, naquele tempo, tão harmoniosa
quanto hoje, ouvida assim, através da saudade...