BEM-VINDO SEJA

"Bem-vindo seja o estrangeiro à cabana de Arakém,
pai de Iracema."
                                José de Alencar

Homem do Sul,
que pisas pela primeira vez a minha terra,
não tenhas medo do Sol nem receio do mar...

O mar é assim bravo e assim violento,
porque guardou, no seu seio imenso e verde,
as imprecações, os brados, os soluços
de todos os párias anônimos
que morreram de fome nos caminhos,
dentro da mesma pátria em que nasceste!

O Sol é forte e claro
como a nossa alma de bronze e de cristal,
que resiste, sem esmorecer jamais,
a todos os embates do Destino
e que, às vezes, reflete,
nas suas faces múltiplas,
a festa das sete cores do arco-íris...

Esperamos mais de um século por ti!
E vimos, tanta vez,
o céu carregar-se de chuva
e a água toda perder-se, para sempre,
no declive das várzeas infinitas
como o próprio infortúnio desta Raça...

Depois,
eram dramas de dor e de sol
que os nossos pés, sangrando, retrançavam
nas estradas sinuosas como serpes,
onde, macabramente, rebrilhava,
à luz assassina do meio-dia,
o ornamento sinistro das caveiras.

Homem do Sul,
ouviste, enfim, o nosso grito?!
Faz cem anos que clamamos assim!
Mas podes aproximar-te, sem receio,
porque, se alguma vez, num gesto de revolta,
levantarmos o braço, em sinal de vingança
- uma voz doce e triste cantará no nosso sangue -,
                                                ó homem do Sul!

com a mesma ternura
com que cantou, há mais de quatro séculos:
              - "Bem-vindo seja"...