TITÃ

"Dizem que, nesse longo trajeto do sertão pernambucano a Minas, não
pronunciou o Capitão mor uma palavra, sequer...
Durante meses e meses não acreditou o povo, no Cariri, na morte de
Filgueiras, símbolo de coragem e de vigor. Criam que ele, quando menos
esperassem, haveria de voltar, vitorioso e sereno, tal como sempre o viram na
paz do seu engenho ou nas guerras da Independência e da República do
Equador.

              (Irineu Pinheiro – "José Pereira Filgueiras")

José Pereira Filgueiras!
Meu trisavô destemeroso e rude!
Eu escuto, desde criança, o teu nome de guerra:
aprendi, muito cedo,
a apontá lo aos outros como um brasão,
como legenda heróica e marcial do meu sertão.

Guerreiro selvagem
— Napoleão das matas,
Aníbal das caatingas —,

tu foste bem o capitão mor do Brasil antigo,
afundando a terra com os tacões de tuas botas,
matando touros com a clava de teu braço,
rijo como barra de aço,
libertando Caxias do Fidíé lusitano,
acordando os sertões
ao ronco de teu bacamarte,
e arrastando o Crato inteiro, o Ceará todo,
para as procissões da Liberdade,
nas antemanhãs sangrentas da República!
1824...
Vejo-te, destemido e leal,
à frente do teu indômito batalhão,
a entrar na velha vila de Fortaleza,
tendo ao lado o apóstolo Tristão.

Vejo-te preso, a caminho da Bahia.
Por ordem do Imperador, a quem tanto amaste!
Por ordem do Imperador, a quem tanto serviste!
Por ordem do Imperador...
Como ias triste!

Nesta jornada final para a morte,
foste mais bravo e mais digno do que nunca.
Ninguém arrancou uma palavra sequer
do teu silêncio brônzeo de estátua,
do silêncio que foi a tua mortalha de granito,
do silêncio que ninguém rompeu,
que ninguém entendeu,
mas que era um hino vibrante,
clangorante,
estrepitoso
viril,
— pela liberdade do Brasil!